Pr. João Pedro Gonçalves
Alguns
têm argumentado que só falta agora termos a bíblia da pastora. Parece que a ideia
por trás é que, quando tivermos mulheres no processo de tradução e revisão das
versões bíblicas, teremos mais leituras "femininas" da Bíblia. Se
essa hipótese estiver certa acerca das mulheres, acho ser no mínimo válida para
as edições atuais. Quer dizer, ter mulheres trabalhando nas edições da Bíblia
para termos leituras femininas e para se achar bases para ministérios
femininos, então, não podemos esperar outra coisa senão que nossas Bíblias
tenha um "cheiro" masculinizante.
Alguns querem também assexualizar o trabalho dos autores bíblicos, como se os
mesmos estivessem acima de quaisquer suspeitas culturais, ideológicas,
topográficas e temporais. Ora, como já demonstrei anteriormente, a teologia não
é atemporal, nem asséptica. Se assim fosse, não seria teologia, não responderia
às perguntas e dúvidas dos leitores da Bíblia. Por conseguinte, se assim fosse,
a Bíblia também não teria respostas para nós hoje. Bíblia, para ser eterna, tem
que ter uma mensagem relevante para os leitores originais, como para nós,
leitores distantes do contexto original.
É certo que a Bíblia foi composta em um determinado contexto. É inevitável
pensar e acreditar assim. Em vista disso, pode-se ver na literatura bíblica
neotestamentária uma luta entre masculino e feminino tão grande que as nossas
(quase) infindáveis discussões nem chegam perto. O texto que apresento agora é
fruto da leitura de um outro que fiz chamado "Formação do cânone
neotestamentário e a mulher na Igreja Antiga" em Coleção História da
Igreja, de Martin N. Dreher.
Contexto Grego: Dominação Masculina
Os filósofos gregos tinham ideias bem definidas acerca da mulher e do seu papel
na sociedade. Isso leva a crer que esses filósofos partilhavam da cosmovisão da
mulher na sociedade grega contemporânea. Platão, por exemplo, escreveu que
"Se a natureza não tivesse criado as mulheres e os escravos, teria dado ao
tear a propriedade de fiar sozinho". Outro filósofo, de nome Xenofonte,
não deixou por menos: "Os deuses criaram a mulher para as funções
domésticas, o homem para todas as outras". Era conselho do próprio Xenofonte
que a mulher "viva sob uma estreita vigilância, veja o menor número de
coisas possível, ouça o menor número de coisas possível, faço o menor número de
perguntas possível”.
Contexto
Judaico
Se os gregos viviam num contexto ginofóbico, o contexto judaico não era
diferente. A Mixná recomendava que as mulheres aparecessem e falassem o menos
possível. Aliás, à mulher vedava-se até mesmo o conhecimento das coisas
espirituais. É conhecida a passagem onde se diz: "Bem estão aqueles, cujos
filhos são homens, mal, no entanto, aqueles, cujos filhos são filhas. Quando um
menino vem ao mundo, vem paz ao mundo; quando vem uma menina, nada vem. Nossos
mestres disseram: Quatro qualidades são evidentes nas mulheres: comilonas,
mexeriqueiras, preguiçosas e invejosas".
Um outro texto ainda mais conhecido, onde o ensino da Torá para a mulher tinha
o efeito de fazê-la perder-se ainda mais: "Louvado seja o Eterno, pois não
me criou como gentio; louvado seja o Eterno, pois não me criou como mulher;
louvado seja o Eterno, pois não me criou como ignorante... Que as palavras da
Torá sejam queimadas, mas não sejam transmitidas às mulheres... Todos aquele
que ensina a Tora para sua filha, ensina-a a ser devassa".
Contexto Bíblico (Canônico)
Os autores dos livros que foram considerados canônicos conhecedores e
enfronhados na cultura grega e judaica, pressupunham que os missionários e
pastores das igrejas só poderiam ser homens. Daí, atribuir-se a Febe o termo
diaconisa (texto já comentado pelo "velho" Zaqueu). Assim, os principais
autores do que ficou para a posteridade como NT ao escrever, faziam também
exegese dentro do contexto em que viviam.
Um Exemplo
Sabemos que o texto neotestamentário tem várias "testemunhas",
manuscritos guardados em bibliotecas famosas e museus antigos. Cópias desses
documentos são consultados no processo de tradução e citados no estudo do texto
bíblicos nas aulas de cânon de nossos seminários. Ao estudarmos esses textos
antigos, concluímos que o texto, ao longo dos anos, sofreram inúmeras inserções
(calcula-se em 200 mil inserções só para o texto do NT). Alguns desses
acréscimos foram feitos por problemas involuntários (audição e/ou visão), ou de
forma voluntária.
A luta entre feminino e masculino influenciou o texto de um desses documentos
antigos, o Códice Beza (D).
a. O texto de Atos 17.4: "Alguns deles foram persuadidos e unidos a Paulo
e Silas, bem como numerosa multidão de gregos piedosos e muitas distintas
mulheres". No códice Beza, lemos: "muitas mulheres de
distintos". As mulheres distintas em uma versão, virou esposas de homens
distintos em outra.
b. O texto de Atos 17.12: "Com isso muitos deles creram, mulheres gregas
de alta posição, e não poucos homens". No códice Beza, lemos: "...
homens gregos de alta posição e mulheres".
c. Atos 1.14: "Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as
mulheres, estando entre elas Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele".
No códice Beza, lemos: "mulheres e crianças".
d. Atos 18.26 aparece a dupla "Priscila e Áquila", no códice Beza:
"Áquila e Priscila".
O códice Beza é conhecido como texto de origem da Ásia Menor. Naquela região,
toda mulher era uma forte candidata à heresia. O Apocalipse de João afirmava de
uma mulher "Jezabel" a heresiarca da igreja. Naquela região da Ásia,
Tiatira, foi o berço do montanismo, onde Prisca e Maximila foram pastoras e
profetisas. Depois, foram consideradas heréticas e foram finalmente expulsas.
Dois Autores: Paulo E Lucas
O apóstolo Paulo tratava com relativa normalidade o fato de na igreja iniciante
ter profetisas, apóstolas, ministras, dirigentes em cada congregação local, de
acordo com 1 Co 11.2-16. Lucas, no entanto, parece caminhar em direção
diferente, omitindo em seus textos esses fenômenos. No entanto, não é
desconhecido para Lucas que mulheres exerciam funções elevadas nas congregações
iniciantes.
Os Evangelhos dão conta que as mulheres foram as primeiras testemunhas da
ressurreição. O Evangelho de Marcos recomenda que as mulheres deem o aviso aos
homens, discípulos de Jesus. Mas o texto de 1 Co 15.3-5 não contempla as mulheres
no relato da ressurreição de Cristo, ao contrário, quando elas relataram o
acontecido aos homens, suas palavras "pareceram como um delírio", (Lc
24.11). Semelhantemente, Lucas escreve que Felipe foi o primeiro missionários
em terras samaritanas, como que desconhecendo o fato de a mulher samaritana ter
sido a primeira a ser enviada ao seu povo.
Apócrifos, Testemunhos "Quase" Suspeitos
É sabido que o cânon do NT não nasceu uno e que sua fixação não foi questão
unânime na igreja até o século XX. Nos primeiros séculos, a questão foi muito
mais debatida. Havia daqueles que aceitavam uns e rejeitavam outros. Em uma
determinada região do império romano alguns livros eram tido como canônicos; em
outras regiões, esse livro tinha a sua leitura proibida. O que ficou e foi
passado como canônico não deixou de ser, em certo sentido, uma decisão de um
grupo que se impôs sobre o outro. O cânon é, no fim, uma questão de fé. Fé na
palavra de Deus e fé na decisão das escolhas dos nossos antepassados.
Na literatura "apócrifa" a
questão da mulher é muito mais light que na literatura "canônica".
Como exemplo dessa afirmação, está que Maria Madalena nos outros escritos tem a
primazia como testemunha da ressurreição.
No Evangelho de Tomé, Pedro chega a se queixar do lugar proeminente que tem
Maria Madalena: "Simão Pedro lhes disse: "Maria deve sair de nosso
meio, pois as mulheres não são dignas da Vida. Disse jesus: "Eu mesmo vou
conduzi-la para fazê-la masculina, de modo que ela também possa se tornar um
espírito vivente, semelhante a vós homens. Pois toda mulher que se fizer a si
mesma masculina entrará no Reino dos Céus".
As mulheres e líderes da igreja dos primeiros séculos baseavam suas atitudes a
partir do relato dos Atos de Paulo e Tecla. Mais tarde, Tertuliano acabou por
diminuir o valor dessa literatura.
O Testemunho da Patrística
Orígenes reconhecia a importância das mulheres num passado recente, mas
afirmava também que elas não mais se pronunciavam em público nas reuniões da
igreja. Crisóstomo também admitia que houvesse na história da igreja mulheres
apóstolas, missionárias, pastoras, mas que isso só foi possível por causa de
uma situação "angelical", ou seja, uma situação de assexualidade da
mulher na igreja dos primeiros séculos.
Ambrósio afirmou que o pecado começou com as mulheres. Com elas, surgiram todos
os ensinos falsos e heresias da igreja.
Conclusão?
Fica claro que Jesus mesmo não tratou as mulheres à moda dos seus discípulos e
dos discípulos dos discípulos. A questão da mulher só se agravou ao longo da
história. Inicialmente, as mulheres não eram discriminadas, pois que, em
Cristo, essa questão de gênero, de escravos e ricos, de xenofobismo foram
eliminadas. Mas a exegese do texto bíblico pelos homens líderes da igreja, a
formação do cânon, as variações textuais dos documentos antigos foram
responsáveis por uma interpretação oficial e oficializante.
De um papel de discípulas – elas seguiram a Jesus desde a Galileia, quer dizer,
não se juntaram ao grupo de Jesus nos últimos dias – as mulheres começaram a
receber uma interpretação de diminuição de importância até que foram condenadas
a ficaram caladas na igreja, proibidas de cantar e só seriam aceitas como
monjas, auxiliares dos homens.
Os autores bíblicos não escreveram o seu texto de forma hermética, com luvas.
Eles escreveram dentro de um contexto, respondendo à questão de cada
comunidade, no calor da discussão.
Foi esse o texto e a interpretação que recebemos. Nossa argumentação, mesmo
quando diante de um texto bíblico, está eivada de tradição, tanto nossa quanto
dos seus autores do passado.
Pastor
João Pedro Gonçalves Araújo, bacharel em Teologia (FTBB, DF), Bacharel em
Filosofia (UnB), Mestre em Ciências da Religião (UMESP), e Doutor em Sociologia
(UnB). É professor de Filosofia e Sociologia na Faculdade Evangélica de
Brasília e professor de Teologia na FTBB (Brasília). É pastor da Igreja Batista
no Lago Sul, Brasília.
Fonte:
http://pastorazenilda.blogspot.com.br/2009/02/biblia-e-machista.html