“Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos
corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.
” Romanos 12.1.
No primeiro verso do capítulo 12 da carta à igreja de Roma, o apóstolo Paulo
nos mostra a forma do culto racional e diário, assim como Moisés escreve o
segundo mandamento (Ex 20.4-6; Dt 4.15-19) como regulamento do mesmo. A Bíblia
revela, do começo ao fim, como devemos adorar a Deus e a forma como foi
constituída essa adoração. O culto segundo as Escrituras provém da Escritura, é
a palavra escrita que determina o culto solene. Não parece ser tão óbvio assim,
devido a real situação do culto na maioria das igrejas. É tanto urgente, como
necessário, oferecer o conceito de culto para que o culto seja devidamente
estabelecido. Culto poderia ser definido como: ajuntamento solene com o
propósito de glorificar a Deus de forma reverente e com muito temor. O povo da
aliança é convocado de forma santa a cultuar a Deus de acordo com Hebreus
12.28-29, lembrando assim que Deus é fogo consumidor:
“Pelo que,
recebendo nós um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual
sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e temor; pois o nosso Deus é um
fogo consumidor.”
Tanto no Antigo como no Novo Testamento a estrutura do culto é abastecida de
temor ao Senhor. Perceba que Hebreus 12 tem ecos do Salmo 50.3-4, como exemplo
disso temos o que aconteceu no Monte Sinai. Deus exige um culto conforme Ele
deseja e somente o aceita dessa forma. A exigência divina deve ser percebida,
Ele exige um culto santo, pois é fogo consumidor. Nas palavras do Rev. Kenneth
Wieske [1] sobre o caráter do culto solene: “Desde o
Antigo Testamento já era necessário obedecer e atender à santa convocação
do Senhor. Quando Deus convocava seu povo diante do Monte Sinai que fumegava,
relampejava, trovejava e via-se a presença dos anjos (At 7.53; Hb 2.2; Dt
33.2), quem ousaria dizer 'não, não posso ir ao culto, pois tenho outros
compromissos? Acho que papai e mamãe irão, mas eu tenho alguma coisa a comprar
no shopping'. Que nada! Deus estava convocando seu povo e ai daquele que não
obedecesse ao seu chamado! Se naquela época era impensável se desprezar a santa
convocação, quanto mais hoje? ”. Eis o que a CFW diz a respeito no capítulo XXI
sobre o assunto do culto solene [2]:
“A luz da natureza
mostra que há um Deus, que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz
bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido
e servido de todo o coração, de toda a alma e de todas as forças; mas, a forma
aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituída por Ele mesmo, e é tão
limitada pela sua própria vontade revelada, que ele não pode ser adorado
segundo as imaginações e invenções dos homens, ou sugestões de Satanás, nem sob
qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas
Santas Escrituras.”
O culto segundo as Escrituras deverá ter características fundamentalmente
bíblicas. Ele deve ser unicamente e devidamente bíblico, evangélico, pactual,
histórico, alegre, litúrgico e reverente [3]. O culto bíblico que o Senhor instituiu tem
implicações nos dez mandamentos. Encontramos esses princípios nos primeiros
mandamentos, onde Deus estabelece quem deve ser adorado, como deve ser adorado
e a reverência dessa adoração. No primeiro mandamento (Ex 20.3; Dt 5.7) há uma
ordem, “não terás outros deuses diante de mim”, aqui aprendemos a
quem unicamente devemos adorar. No segundo mandamento (Ex 20. 4-6; Dt 5. 8-10)
observamos a maneira que Ele instituiu essa adoração e nos deixou avisados da
forma que Ele mesmo abominaria se fizéssemos.
“Não farás para
ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas
águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás
culto, porque eu, o Senhor, o teu Deus, sou Deus zeloso, que castigo os filhos
pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me
desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e obedecem
aos meus mandamentos. ” Êxodo 20. 4-6.
No terceiro e quarto mandamentos, de forma contínua é pressuposto o dia e a
reverência dessa adoração (Ex 20.7-11; Dt 5.11-15). Nem as especulações
humanas, nem muito menos a sinceridade de um coração é suficiente para celebrar
o Deus Triuno no culto solene. A exemplo disso temos Caim (Gn 4.5), Nadabe e
Abiú (Lv 10.1-2), Uzá (2 Sm 6.6-7) que tentaram da sua própria forma realizar
um culto e/ou oferecer um serviço na presença de Deus.
O culto deve ser bíblico pelo
inequívoco fato de que Deus, em Sua palavra, já ter regulado os elementos do
culto e seus princípios que são segundo a sua vontade (Dt 12.29-32). Deus
revela em Sua sagrada palavra tudo o que precisamos para cultuá-lo com zelo
pela sua glória e reverência pelo seu nome. Desejo sincero não significa culto
aceitável, cumprimento bíblico sim. Oferecer um culto ao Senhor sem ser
prescrito pela Sua palavra é uma profanação a sua pessoa. Um culto à si mesmo é
condenado pela própria Escritura (Cl 2.23). Não há desculpa para se apartar da
regra, a regra é clara. O que não é proferido não pode ser oferecido. Segundo
Daniel Hyde, em poucas palavras [4]: “Em tempos de analfabetismo
bíblico, precisamos de um culto cheio das Escrituras, com uma linguagem
escriturística em cada aspecto, das leituras responsivas e cânticos, às orações
e leituras bíblicas propriamente ditas. ” Importa que estejamos aptos para
compreender que o culto segundo as Escrituras precisa ser cheio das
Escrituras.
O culto deve ser evangélico, isto é, alicerçado nas boas novas de salvação em
Cristo Jesus. O culto deve ser cristocêntrico, deve ter o evangelho ressoando
do começo ao fim. O culto deve ser evangélico devido a obediência ativa e
passiva de Cristo, Ele mudou tudo. Temos livre acesso a presença de Deus, o
evangelho - Cristo nos garantiu esse caminho novo a presença do Criador (Ef
2.11-22; Hb 10.19-22). Temos um grande sacerdote sobre a casa de Deus, o autor
aos Hebreus afirma com clareza que através do sangue de Cristo podemos
confiantes nos aproximar humilhados além do véu. “Assim, aproximemo-nos de
Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé, tendo os corações
aspergidos para nos purificar de uma consciência culpada e os nossos corpos
lavados com água pura. ” Hebreus 10.22. Assim como Abel (Hb 11.4), podemos
nos aproximar com plena convicção de fé e um coração sincero, um culto
superior, pois é segundo as Escrituras. O culto é evangélico pois o evangelho é
o reflexo daquilo que é pregado, orado e cantado. O povo do pacto é alimentado
pelo evangelho e o Espírito Santo atrai os incrédulos para ouvir as boas novas
de salvação. A grande questão é que nos nossos dias os cultos foram divididos
por temas. E com isso há grandes prejuízos. Me parece que o que temos hoje são
fatias de um bolo que não poderia ser ratificado. Culto de adoração, culto da consagração,
culto evangelístico, culto de oração e/ou doutrina. Acredito que o culto deverá
conter esses elementos, não há culto solene sem oração ou exposição da sã
doutrina. Não poderá haver culto sem o evangelho ou sem consagração. Todo culto
deverá conter elementos prescritos na palavra, como disse Timothy Keller [5],
em resumo:
“Se o culto de
domingo visa em primeiro lugar o evangelismo, aborrecerá os santos. Se
visa principalmente a instrução, confundirá os incrédulos. Mas se visa louvar o
Deus que salva pela graça, isso vai instruir os de dentro e desafiar os de
fora. A boa adoração corporativa será naturalmente evangelística”.
Complemento dizendo que, todo esforço não será útil para somente abastecer os
santos ou atrair os incrédulos, o culto deve ser bíblico e conter elementos que
glorifiquem o Senhor, que é santo e soberano sobre todos os corações.
O culto deve ser pactual, significa não ser tradicional ou moderno. Essas
formas culturais de culto não são apropriadas ao contexto teológico segundo as
Escrituras. Manter a distância das formas contextualizadas de culto segundo as
especulações humanas deve ser o dever do cristão. O culto deve ser pactual pelo
fato de ser baseado na aliança de Deus com o seu povo. De acordo com a
continuidade do Antigo e Novo Testamento, conforme prescrito na lei. O culto
deve ser pactual porque possui um caráter legal e íntimo como um casamento, a
comunidade dos eleitos com o Deus Triuno (Ef 5), uma verdadeira aliança. Muitos
podem objetar dizendo que precisamos de um culto contemporâneo, com a intenção
de atrair uma nova geração de crentes que vivem em uma outra forma cultural de
adoração. Engano! Nosso culto deve ser guiado pelo padrão das Escrituras, não é
a cultura que dita a forma da santa convocação nem os elementos oferecidos na
adoração. Outros podem destoar do conceito de culto pactual, devido não ser uma
linguagem acessível. No entanto, como disseram os reformadores devemos falar no
vernáculo, ou seja, numa linguagem compreensível. A ordem da pactualidade do culto
solene não despreza uma linguagem acessível, nem muito menos a suficiência do
texto sagrado. A estrutura que predomina nas Escrituras é o pacto, a Bíblia é
um documento pactual, deve ser necessário essa compreensão para não restar
dúvidas sobre essa forma de culto. Há um diálogo entre Deus e o Seu povo no
culto, vejamos essa citação: “Deus nos diz: 'Eu serei o seu Deus' e nós
respondemos: 'Nós seremos o seu povo'. Deus nos chama à adoração e
respondemos em cântico. Deus nos fala a sua Lei, nós lhe respondemos com a
confissão dos nossos pecados. Ele nos absolve dos nossos pecados, nós
respondemos em oração. Ele nos fala pela Palavra e nos sacramentos, nós
respondemos com dádivas de gratidão e doxologia. Isto é o que realmente
significa dizer que o nosso culto é pactual. ” O culto é a renovação da
promessa pactual que Deus fez em Cristo conosco, esse pacto da graça é renovado
a cada semana na exposição da Palavra e nos Sacramentos.
O culto deve ser
histórico porque é
necessário que seja coerente com a doutrina dos apóstolos, que tenha
continuidade com a história da igreja e que realce a maneira que os nossos
antigos cristãos cultuaram solenemente o Deus Triuno. Deve ser um culto
histórico e unido a tão grande nuvem de testemunhas (Hb 12.1). Quando nos reunimos
no dia do Senhor, devemos ter em mente que estamos de forma coerente afirmando
aquilo os antigos cristãos também afirmaram sobre a solenidade e simplicidade
do culto. Seguindo o modelo básico da igreja primitiva sobre o culto, conforme
testemunho dos pais da igreja, dos reformadores e seus escritos. Como afirma o
Hyde [6], “em resumo, seguimos este modelo básico da Igreja primitiva
de culto, no qual a Palavra é lida e pregada, os sacramentos são celebrados com
ação de graças, orações de confissão, intercessão, graças são dadas, e as
ofertas do povo de Deus coletadas para o ministério da misericórdia.”
O culto deve ser
alegre e reverente, e isso quer dizer
cheio de temor ao Senhor. Não espontâneo e sem entendimento. Aqui, chegamos num
ponto controverso. Quem disse que um culto recheado de risos, gritos e danças é
um culto alegre? Quem disse que um culto silencioso, harmonioso, sem expressões
extravagantes é um culto triste? A liquidez dos cultos perde completamente o
sentido de alegria sólida e perseverante. Segundo os Salmos, o culto é
extremamente alegre e reverente (Sl 100.1-3). Percebemos o salmista enfatizando
extrema alegria e temor. A questão é que a falta de percepção de quem nós somos
não os permite entender o que significa verdadeira alegria no culto ao Senhor.
Não seria a hora de entender o que de fato é, e não é alegria? Alegria não quer
dizer ter liberdade para fazer o que quiser, também não quer dizer oferecer ao
Senhor o seu culto do seu jeito conforme seu bem parecer. Um culto alegre significa
uma grande expectativa que Deus irá lançar sobre nós a Sua graça quando diante
dEle estivermos reverentes com tremor e temor (Sl 2.11). O culto alegre é um
deleite na bondade do Senhor e em resposta manifestamos nossa gratidão diante
do seu favor. A alegria é a condição de um coração que foi profundamente
convicto dos seus pecados diante de um Deus Santo que foi compassivo e
misericordioso. A alegria de um culto é a qualidade de um coração que foi livre
da condenação e aceito por um supremo e justo redentor. Alegria e agitação não
são sinônimos, emoções desenfreadas e extravagantes na verdade só enfatizam
falta de reverência e temor diante de Deus que é fogo consumidor. Nas palavras
do Robert Godfrey [8], “Devemos lembrar que reverência nem sempre
significa calma, e alegria nem sempre significa ruído. Alegria e reverência
são, antes de tudo, atitudes do coração para as quais procuramos manifestações
apropriadas no culto. A alegria pode ser intensa no canto de uma canção muito
tranquila. A reverência pode ser manifesta no cantar alto. ” Devemos a
exemplo dos santos no AT e NT oferecer ao Senhor um culto alegre e reverente,
grandes coisas fez o Senhor por nós e por isso estamos alegres (Sl 126.3).
O culto de ser
litúrgico, organizado e
estruturado. Isso não quer dizer mecânico ou seco, como se não houvesse vida. O
culto deve ser compreensível e simples, seguido conforme o rito (Lv 9.16 cf. Lv
10.1; Dt 12.29-32), isso não quer dizer cheio de rituais antropocêntricos.
Liturgia ou ordem de culto significa um serviço, Cristo e o Seu povo como num
banquete santo, uma atividade pactual. Nos é devido adorar ao Pai em espírito e
em verdade (João 4.24), todavia, existe uma estrutura para que essa adoração
seja oferecida. A necessidade da liturgia não é transformar o culto em ritos
idolátricos, a ausência da liturgia não quer dizer que o culto se torna
dirigido pelo Espírito Santo. É necessária cautela, precisamos ser fiéis ao
padrão divino que está prescrito em Sua palavra. Uma estrutura litúrgica
bíblica de culto não será enfadonha ou cansativa, será sim, de grande
ensinamento e isso apontará a glória de Deus em Cristo. O centro da liturgia é
a Palavra de Deus lida e proclamada, como também os Sacramentos administrados
corretamente. A congregação entoa cânticos, faz orações e confissões, declara a
confissão de fé e ajunta ofertas para os necessitados, finalizando com uma
benção, desafiando os cristãos a seguirem firmes e com fé na proclamação do
evangelho. Os elementos do culto, conforme prescritos nas Escrituras, precisam
enfatizar e anunciar o Senhor Jesus Cristo e seu supremo e perfeito sacrifício.
A igreja precisa compreender que a cultura não tem autoridade sobre o culto ao
Senhor. O Culto conforme o Evangelho é contra e supra cultural. A adoração deve
ser segundo as Escrituras, o sermão expositivo deve ser compreensível, os
sacramentos devem ser administrados corretamente, as orações e ações de graça
no culto precisam ser rendidas segundo a vontade soberana e a renovação pactual
estabelecida. Combatemos o culto místico, louvores que exaltam o homem, uma
liturgia idólatra, confissões positivas, apelos compulsivos, orações que
obrigam Deus satisfazer desejos ególatras. Juntamente com as Escrituras
precisamos priorizar o culto solene abastecido de sermões expositivos, liturgias
confessionais, sacramentos biblicamente administrados e orações humilhadas. Nas
palavras de Calvino temos uma ótima advertência [9]:
“Exortamos os
homens a que não adorem a Deus de modo frígido e descuidado, e enquanto
apontamos o modo, não podemos perder de vista o fim, nem omitir qualquer coisa
que diga respeito àquilo que apontamos. Proclamamos a glória de Deus em termos
muito mais elevados do que estávamos acostumados a proclamar antes, e com todo
vigor trabalhamos para tornar as perfeições nas quais a glória de Deus brilha
mais e mais conhecidas. Exaltamos tão eloquentemente quanto podemos seus
benefícios a nós, ao tempo em que conclamamos outros a reverenciar sua
majestade, render a devida homenagem à sua grandeza, sentir a devida gratidão por
sua misericórdia, e nos unirmos em seu louvor. ”
Portanto, concluo que devemos rejeitar todo e qualquer culto a si próprio. O
culto do ego, das habilidades, das conveniências. Rejeitemos com força a
hipocrisia dos fariseus e a religiosidade dos líderes dos judeus. Rejeitemos
toda influência cultural e que a cada semana seja a nossa doxologia oferecer ao
Senhor um culto segundo as Escrituras.
“Apliquem-se
a fazer tudo o que eu ordeno a vocês; não acrescentem nem tirem coisa alguma.
” Deuteronômio 12.
_________________
Notas:
[1] Prefácio do
livro - Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os
Puritanos, 2014.
[2] Confissão
de Fé de Westminster, capítulo XXI.1.
[3] Hyde, Daniel
R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.
[4] Hyde, Daniel
R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.
[5] Timothy J.
Keller, “Reformed Worship in the Global City,” in Worship by the Book,
p. 219.
[6] Hyde, Daniel
R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.
[7] Hyde, Daniel
R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.
[8] W. Robert
Godfrey, Pleasing God in Our Worship (Wheaton, IL: Crossway
Books, 1999), p. 24.
[9] João
Calvino, The Necessity of Reforming the Church (Audubon, NJ:
Old Paths Publications, 1994), p. 25–26.
***
Autora: Morgana Mendonça
dos Santos
Divulgação: Bereianos
Márcio
Melânia
Mestre em Gestão Pública
"Quanto ao mais, irmãos, regozijai-vos, sede perfeitos, sede consolados,
sede de um mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz será
convosco."
(2 Coríntios 13 : 11)